A jovem carioca de 17 anos, Ana Letícia Silva, conquistou o topo do pódio no Campeonato Mundial de Karatê, que ocorreu em Bahrein durante o mês de outubro. Competindo nas categorias entre 17 e 18 anos da faixa roxa a preta, a brasileira disputou a final contra a marroquina Jihane Bahajjou e demonstrou excelente desempenho, garantindo a vitória com um placar de 5 a 4 no ISF Gymnasiade Bahrain 2024.

Ana Letícia disputando a final contra a atleta marroquina Jihane Bahajjou no ISF Gymnasiade Bahrain 2024.
Sempre estudiosa e esforçada, “Leãozinho” – como foi carinhosamente apelidada na infância por causa dos cabelos bagunçados durante os treinos, iniciou sua trajetória aos 5 anos de idade na Vila Olímpica da Maré e nunca faltou a uma aula. Inspirada pela irmã, Ana Paula, a pequena se inscreveu em diversas atividades, mas encontrou na arte marcial sua paixão. Em entrevista, ela comentou sobre a conquista da medalha: “Eu imaginava essas conquistas como um sonho, não como algo real. Era sempre algo distante. E mesmo depois de acontecer, não caiu a ficha completamente. É muito bizarro ver que algo que eu sonhava, se tornou realidade. Chega a ser engraçado.” , comentou a atleta. Falou ainda sobre o impacto da Vila Olímpica em sua formação: “(A vila) me ajudou a ter discernimento, entender o que é certo e errado. Muitos conversavam comigo, eu via que era uma relação de carinho, responsabilidade e respeito. No âmbito pessoal, me tornou quem sou hoje. E no profissional, abriu muitas portas. Eu não teria feito as viagens, treinado intensamente… Eu não seria a atleta e a pessoa que sou hoje. E se tem um aprendizado que vou levar de lá, é a empatia.”

Ana Letícia com a irmã, Ana Paula, na Vila Olímpica da Maré.
Valdinardes, primeiro professor de Letícia na Vila Olímpica, compartilhou detalhes de sua trajetória: “Ela sempre foi curiosa e ousada. Eu descobri o talento dela e de sua irmã no projeto “Mais Educação”, na escola Teotônio Vilela. Conversei com a mãe delas sobre o potencial e convidei elas para fazer um teste. […] Ela sempre teve facilidade em aprender as técnicas e sempre quis ser vencedora, estar em primeiro lugar. Hoje ela é Chefe de Pelotão aos 17 anos, vai fazer o exame para a faixa preta, se formar em Educação Física… para mim é um orgulho ter essa participação na vida dela.”

Ana Letícia na Vila Olímpica da Maré, com 6 anos de idade.
Desde 1990, os Jogos Esportivos Escolares são realizados a cada dois anos, sob supervisão da Federação Internacional de Esportes Escolares (ISF) e contam com a participação de aproximadamente 5.000 atletas, representando cerca de 70 países (fonte: www.isfbahrain.org). Em 2024, o Brasil garantiu o primeiro lugar com 164 medalhas – sendo 53 delas, de ouro. E com uma rotina intensa de treinos e muita disciplina, Ana Letícia fez com que uma dessas 53 medalhas fosse dela. “Enquanto à parte física e técnica, o preparo foi o mesmo que para qualquer outro campeonato. A única diferença foi focar bastante no mental. Me preparei muito psicologicamente. Comecei a fazer terapia pra não sentir a pressão e me sentir tranquila, porque representar o seu país é algo muito sério. Mesmo sendo algo que você gosta de fazer, tem um peso maior ao representar a sua nação.”, revelou. “Acho que para qualquer atleta, se você não tem uma mente forte, tudo o que você construiu pode acabar em um ‘estalo’.”
Relembrando suas raízes, Lelê comentou ainda sobre o apoio recebido: “Recebi muita ajuda da minha família e de amigos próximos. Minha mãe faz de tudo por mim. É muito bom sentir que tem pessoas gostam de você e que moveriam o mundo pra te ver feliz, esse apoio é muito necessário não só pra um atleta. Qualquer pessoa precisa do apoio de quem ama. Porque quando se tem isso, você entende que está indo pelo caminho certo.” Sua mãe, Josineide, também compartilhou alguns obstáculos enfrentados: “Nós passamos por momentos bem difíceis. Eu era mãe solteira, ela precisou se privar de investir no esporte, sofreu julgamentos… a gente tinha muito receio porque são muitos custos para competir. Nós recebemos muita ajuda. O professor ajudava a levar ela em casa, dava lanche (…) e mesmo não continuando na Vila Olímpica por questões logísticas, tudo o que ela aprendeu na infância ficou gravado. Agora ela aprimora o que aprendeu, mas o jeitinho de lutar é o mesmo de quando aprendeu quando pequena.”
Ana Letícia é mais um feliz exemplo dos frutos gerados pelos projetos da Vila Olímpica Seu Amaro. Sua vitória, é também a vitória de centenas de jovens e crianças que são alvos da desigualdade e lutam diariamente pela inclusão social e por mais oportunidades. Agora, a atleta retorna ao Brasil, com a mentalidade de que o trabalho continua mesmo após a conquista da medalha. Os próximos planos envolvem o início da graduação, a tão sonhada carreira como atleta militar e a ambiciosa meta de uma medalha olímpica.